29 de agosto de 2013

Amor vem de amor


Vem de longe, vem no escuro, brota que nem mato que dispensa cuidado e cresce com a mais remota chuva. Vem de dentro e fundo e com urgência. Amor vem de amor. Que não cabe, mas assim mesmo a gente guarda. A gente empurra, dobra, faz força, deixa amassado num canto, no peito, no escuro, dentro, ou larga pegando sereno. Amor vem de amor. Vem do pedaço mais feio, do mais sem palavra, do triste, vem de mãos estendidas. É tecido desfeito pelo tempo, amarelecido pelo tempo, pelo cheiro da gaveta fechada, pelo riscado do sol na madeira. Amor vem de amor. Vem de coisa que arrebata, vira chão, terra, cisco, resto, rastro, coisa para sempre varrida. É delicadeza viva forte violenta. Que faz doer, partir, deixar caído. Amor vem de amor. 
E dói bonito! Cheio de sabor.

[Guimarães Rosa]

1 comentários:

Tereza disse...

Guimarães Rosa é sempre uma boa indicação..Adorei o trecho.
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Vi fazer um convite: trata-se de um projeto literário super bacana. Marquei seu blog em uma postagem lá no R.G.

Vem comigo participar??

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Te espero...
=')
http://rascunhosdeguardanapo.blogspot.com.br/2013/09/memorias-postumas.html